{"id":11624,"date":"2025-06-20T11:06:32","date_gmt":"2025-06-20T14:06:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacolivresergipe.com.br\/?p=11624"},"modified":"2025-06-20T11:06:33","modified_gmt":"2025-06-20T14:06:33","slug":"alerta-de-emergencia-escreve-o-produtor-cultural-e-escritor-j-victor-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacolivresergipe.com.br\/index.php\/2025\/06\/20\/alerta-de-emergencia-escreve-o-produtor-cultural-e-escritor-j-victor-fernandes\/","title":{"rendered":"Alerta de Emerg\u00eancia, escreve o produtor cultural e escritor J. Victor Fernandes"},"content":{"rendered":"\n<p>Por J. Victor Fernandes*<\/p>\n\n\n\n<p>O plano de soberania do Pa\u00eds do Forr\u00f3 segue em curso, as guarni\u00e7\u00f5es sergipanas avan\u00e7am no territ\u00f3rio junino com for\u00e7a, nas trincheiras da alegria. Nem os pulm\u00f5es pipocando de catarro impedem a tropa de ocupar as plateias, bem treinadas na arte do ariar fivela e do rela-bucho, apetite et\u00edlico, p\u00e9s ligeiros e cinturas rebolativas prontas para o embate. H\u00e1 quem diga que est\u00e3o fazendo uso de armas qu\u00edmicas!<\/p>\n\n\n\n<p>Calma, talvez seja teoria da conspira\u00e7\u00e3o, mas eu resido bem perto do Arrai\u00e1 do Povo, e na \u00faltima ter\u00e7a do Arrocha \u2014 da qual me fiz ausente por compromissos matinais inadi\u00e1veis e um f\u00edgado traumatizado \u2014 havia uma fuma\u00e7a orvalhada no ar que cheirava a vodka, gim, aguardente, energ\u00e9tico e perfume daqueles que uma mo\u00e7a tenta entregar uma amostra em shoppings, galerias e cal\u00e7ad\u00f5es. Foi por pouco. Quando dei por mim, j\u00e1 estava no port\u00e3o com os quadris nervosos. Voltei e me tranquei. Quase fui pego pela magia almiscarada, alquimia de Slova, Corote azul, Rocks e Night Blue de melancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bem verdade que minha aus\u00eancia na esb\u00f3rnia n\u00e3o se d\u00e1 apenas por raz\u00f5es hep\u00e1ticas ou compromissos; \u00e9 que a vida de produtor cultural maltrata os aparelhos sensoriais do cabra. S\u00e3o muitas horas de exposi\u00e7\u00e3o ao som, m\u00fasicas repetidas, luzes \u2014 tudo em m\u00e1ximo foco pela entrega do melhor resultado. Um ter\u00e7o do caminho no calend\u00e1rio de festas e abro uma gaveta e ou\u00e7o: \u201cQuem \u00e9 voc\u00ea pra derrubar meu mungunz\u00e1?\u201d. Abro o guarda-roupa: \u201cOh, meu vaqueiro, meu pe\u00e3o!\u201d. Fecho os olhos: \u201cCora\u00e7\u00e3o, para que se apaixonou!\u201d. No banho, me pego cantando Mestrinho (l\u00e1 ele!): \u201cEu e voc\u00ea somos um s\u00f3!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Devaneios \u00e0 parte, descanso e lazer passaram a ser momentos mais silenciosos, por quest\u00e3o de sa\u00fade mesmo. Tem dias em que o ouvido d\u00f3i e\/ou fica zunindo. A perda da audi\u00e7\u00e3o devido \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o ao ru\u00eddo cotidiano da \u00e1rea profissional \u00e9 lenta e progressiva. Por\u00e9m, uma vez que acontece e acontece, n\u00e3o tem volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhe enquanto eles dormem, literalmente. O prolet\u00e1rio da arte v\u00ea e vive coisas magn\u00edficas, mas tudo isso \u00e9 muito intenso, fisicamente desgastante, cobra um pre\u00e7o. Num multiverso em que o produtor, em regra, tivesse direitos trabalhistas reconhecidos, era para ter insalubridade tamb\u00e9m \u2014 feito mergulhador de plataforma \u2014 se aposentar mais cedo at\u00e9. Obreiros da arte, escafandristas abissais dessa zorra de tempo bagun\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Respeit\u00e1vel p\u00fablico! No final, todo artista e produtor que est\u00e1 \u201cno corre\u201d regional carrega um pouco da aura do palha\u00e7o: cansado, buf\u00e3o, com o nariz vermelho de rinite, pagando mico, rindo de nervoso, mas encarando o picadeiro imbu\u00eddo da miss\u00e3o. Afinal, \u00e9 o mundo se acabando, polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o cach\u00ea perdendo o valor de compra, a frustra\u00e7\u00e3o com os editais, que seguem deixando muita gente boa e necess\u00e1ria de fora da panela; outros, igualmente capazes, ficaram fora dos palcos da prefeitura e do governo. Em que pese \u2014 e justi\u00e7a seja feita \u2014 para quem est\u00e1 alheio \u00e0s demandas hist\u00f3ricas dos artistas, a festa est\u00e1 muito bonita: \u00f3timas atra\u00e7\u00f5es, os palcos nos bairros foram uma acertada, seguran\u00e7a, fam\u00edlias curtindo, um clima at\u00e9 de nostalgia.<\/p>\n\n\n\n<p>Acaba n\u00e3o, mund\u00e3o! Tornava eu para casa depois de uma semana de maratona \u2014 produ\u00e7\u00e3o todos os dias e tr\u00eas dias julgando quadrilhas, dormindo em m\u00e9dia tr\u00eas horas por noite \u2014 finalmente iria descansar. Que luxo! Longe de assentar todas as experi\u00eancias, ouvindo o eco dissonante de can\u00e7\u00f5es e conversas. Naquele dia, o c\u00e9u cinza-chumbo pesava, ventos ligeiros feito barcos de fogo rasgavam o c\u00e9u, que n\u00e3o demorou a desabar. No dia anterior, os shows j\u00e1 haviam sido adiados por medida de seguran\u00e7a. O povo chiou: queriam forr\u00f3. Nas redes, No\u00e9 de IA, mulher reclamando que os homens daqui n\u00e3o chamam para dan\u00e7ar, e gente tirando os casacos de neve do arm\u00e1rio. Nas not\u00edcias, massacre em Gaza, ataque de Israel, m\u00edssil hipers\u00f4nico do Ir\u00e3, mortes e mais mortes, amea\u00e7a nuclear requentada. Bolsonaro chamando Xand\u00e3o para ser vice. Eis que cochilei.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um daqueles sonhos em que voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o imerso e cansado que compra a viagem: chovia torrencialmente e n\u00e3o cancelaram os shows, o povo dan\u00e7ava j\u00e1 com \u00e1gua nas canelas. Na beira da praia, arcas enormes desembarcavam casais vestindo preto. O furac\u00e3o Serigy estava prestes a passar pela costa. No palco, estavam todos os artistas da terra \u2014 os escolhidos e os n\u00e3o escolhidos, os que s\u00e3o amigos, talaricos e inimigos \u2014 todos os gestores abra\u00e7ados: situa\u00e7\u00e3o, oposi\u00e7\u00e3o, os que sempre est\u00e3o. Eu sabia, era o fim. O c\u00e9u clareou \u2014 \u201colha pro c\u00e9u, meu amor!\u201d \u2014 m\u00edsseis cadentes apontavam no firmamento. Soava um alarme estridente, enquanto todos tocavam e cantavam: Sergipe \u00e9 o Pa\u00eds do Forr\u00f3! Sumimos do mapa feito Macondo.<\/p>\n\n\n\n<p>Acordei suado, com a vista emba\u00e7ada. O celular alardeava: Alerta de Emerg\u00eancia em letras garrafais. Fora um teste da Defesa Civil em alguns munic\u00edpios do estado. Dei gra\u00e7as ao meu santinho por acordar. Estava na hora de voltar ao trabalho \u2014 \u201cQuando chega o m\u00eas de junho, na Rua de S\u00e3o Jo\u00e3o&#8230;\u201d \u2014 cantarolei. Inclusive, manda jobs! Quer dizer, job n\u00e3o pode mais, manda trabalho!<\/p>\n\n\n\n<p>* J. Victor Fernandes \u00e9 produtor cultural e escritor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por J. 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